Rosas de Sangue

Elas são as rosas. O sangue as suas memórias.

Foi em Veneza. Estávamos a passear por entre as ruas da cidade. Eu quis comer um gelado. Ele comprou-me um gelado. Deu-me o gelado com um olhar sedutor e libertino. Um verdadeiro Casanova. Taus! Senti a mão pesada dele no meu rosto.

Catarina Lima

Sinopse

Quatro mulheres partilham as histórias dramáticas de medo e terror a que foram sujeitas. Submersas, emotivas e verdadeiras, elas experienciaram impulsos de grande intensidade, de revolta, que marcaram os seus destinos. Em comum, elas não escondem o que viveram e fizeram. As suas palavras e acções provocam-nos uma empatia e um conflito de sentimentos, muitas vezes contraditórios, outras vezes apaixonantes.

Elas são as rosas, os espinhos são as marcas que elas trazem tatuadas no corpo, o sangue as suas memórias, as memórias que não podem esquecer, são rosas de sangue.

"Rosas de sangue" é uma espécie de documentário teatral ficcionado que retracta episódios de três mulheres que foram vítimas de violência por parte dos seus companheiros. As três, em consequência das agressões, cometeram crimes, num dos casos preme-ditado, noutro por impulso e um terceiro por um acto de loucura momentânea, que em comum podemos chamar de legítima defesa. Elas viram-se obrigadas a libertarem-se dos actos de violência que sofreram por parte dos seus agressores ao longo de anos.

Catarina Lima

Sobre

«Rosas de Sangue» é um espectáculo que aborda a violência exercida sobre as mulheres, com destaque para a violência doméstica. Não sendo uma tese académica sobre a violência doméstica, o espectáculo inspira-se em depoimentos reais, e outros analisados por especialistas na matéria, tendo contado com o apoio e experiência de técnicos da Associação de Apoio à Vítima (APAV). Para além do seu carácter enquanto espectáculo de teatro, «Rosas de Sangue» assume-se também como uma obra pedagógica direccionada aos jovens maiores de 12 anos, levando-os a questionar comportamentos culturais e sociais que ainda dominam a nossa sociedade.

No fundo, o espectáculo, pretende analisar e perceber como ex-vítimas de situações de violência doméstica lidam com as memórias dos episódios a que foram sujeitas. Por outro lado, pretende descodificar e desvendar os indícios que cada um de nós, em particular os jovens, pode detectar comportamentos ou actos de risco que nos conduzem à violência física e psicológica.

Inserido no projecto «Violência? Não obrigado», reconhecido pela Associação Nacional de Municípios Portugueses no ano de 2014, como um instrumento de qualidade no contributo para a sensibilização sobre a problemática da violência doméstica, este projecto foi e é desenvolvido no concelho de Vila Real, em parceria com o Município de Vila Real, tendo merecido o apoio da Fundação Rotária Portuguesa e o envolvimento directo da APAV.

sobre a encenação

O espectáculo assume uma dinâmica cénica própria, recorrendo às mudanças de cena, que nos transporta para o ambiente de uma prisão, passando por um gabinete, por uma cela, um pátio, e uma lavandaria.

O jogo cénico não é convencional, definindo uma cronologia própria, em que todas as cenas podem ser ordenadas cronologicamente por opção de cada espectador, como um puzzle de episódios teatrais, respeitando uma linguagem realista. Neste jogo cénico, os tempos e os espaços diferentes coexistem no tempo presente, no momento do acto de representação, dando uma relevância à iluminação, que se assume como um elemento fundamental em toda a encenação, ajudada pelo ambiente sonoro sugestivo.

Ao longo de 60 (sessenta) minutos, as quatro actrizes, conduzem-nos a um universo de profunda cumplicidade e empatia, ora dramático, ora poético, e em muitas situações elevando os sorrisos no rosto de quem acredita que aquelas mulheres são hoje livres e que sempre sonharam serem felizes.


sobre as personagens

ISABEL, no seu gabinete recolhe os depoimentos das três reclusas, com o intuito de perceber como é que aquelas mulheres lidam com a violência de que foram vítimas e com o crime que cometeram. Pragmática, Isabel não consegue ignorar as suas emoções: «Luto constantemente para ser imparcial, cega, pragmática, para conseguir um juízo e uma análise justa e real. Mas vejo-me reflectida nas emoções e na dor.» O que quererá a Doutora Isabel, com os depoimentos que vai recolhendo? A resposta ficará com os espectadores.

GLÓRIA é a mais velha de todas, foi vítima de violência durante vinte anos. Aos nossos olhos, e como ela própria o diz, ela hoje lida bem com o seu passado: «hoje tenho esses sentimentos guardados em diferentes gavetas, e sinto-me bem.» Por resolver, só a relação com a sua filha. O seu filho é um apoio que a torna serena, agarrada aos livros, às histórias que a fazem acreditar que a vida vale a pena. Refugiada nos livros, continua a acreditar que tudo vale a pena.

PAULA, a mais nova, assumidamente mantém uma ligação directa e forte com o público mais jovem, quer pela sua linguagem quer pela sua experiência, desvendando os aspectos da violência no namoro. Ela viveu sete anos de violência física extrema, com o seu namorado de escola, com quem veio a casar. Todos os factos são ainda muito recentes desses anos a que foi obrigada a viver experiências assustadoras. O trauma fá-la lidar com a vida de uma forma inesperada, sem noção da realidade, sempre com um sorriso nos lábios, dançando e olhando para a vida como se a vivesse pela primeira vez. A única realidade são os seus meninos.

ANABELA era uma mulher da alta sociedade, que viveu em silêncio absoluto a violência de que foi vítima. Pouco partilha o que sente e o que viveu. O exercício físico que hoje pratica exaustivamente transporta-a para um universo que só ela conhece, que a liberta da angústia de saber o que os seus filhos irão pensar da mãe quando souberem da verdade. O seu fim, premeditado por ela própria, é trágico, e ninguém o adivinhava, apenas Glória o pressente. Glória, também já esteve na mesma encruzilhada.



ficha técnica

elenco

(por ordem de entrada)
Isabel Feliciano
Glória de Sousa
Paula Rios
Anabela Nóbrega

autorias

texto, encenação e espaço cénico
Fábio Timor
figurinos
Isabel Feliciano
desenho de luz e sonoplastia
criação colectiva
fotografia de cena
Catarina Lima

classificação

M|12 anos

duração

60 minutos

estreia

Teatro Municipal de Vila Real
Qui, 26.Nov.2015 | 21:30